Vou contar lorotinha para passar o
tempo, já que não conheço nenhum mantra para diminuir a ansiedade e
fazer com que gente desagradavel suma da face da Terra.
Então, eu acho burrice sair de uma casa antiga, com toda uma históra, com mais de 100 anos nas costas, com o corpinho perfeito e que ainda aguentará muitas ameaças de tornado, para entrar em uma divida para a vida toda financiando uma casa nova nos EUA. Entendo perfeitamente a minha sogra - ela acha que uma casa nova é sinônimo de ser bem de vida. Para mim e meu marido é sinônimo de 'dívida' e dor de cabeça.
Meu marido tem as vaidades dele. Eu tenho as minhas. Somos mãos de vaca. A vaidade dele é ter uma boa moto de corrida. A minha é viajar e ter um cabelo sem pontas duplas. Então, não gastamos muito e eu estou fazendo o Um Ano Sem Compras. Não comprarei nada para mim ou para a casa por 1 ano. Pratico o desapego também. Nós, ao contrário da classe média americana, não acumulamos o que não usamos. Eu faço doações das roupas, de brinquedos, até de gaiolinha de carregar gato. Deu sopa, eu estou doando. Não tenho a menor cerimônia em comprar em lojas de usados. Meu amor eterno os EUA e sua cultura das thrift stores. Aprendi com a Marjorie Rodrigues que devia para de mimimi e desapegar também dos livros do Monteiro Lobato. Conteúdo racista. É uma necessidade imensa importar esses livros para cá, para montar a biblioteca de meu menino? Não. Tantos autores brasileiros de literatura infantil fantásticos, não é mesmo. Desapeguei do Monteiro.
***
Quando o curso está difícil e eu começo a dar aquela piradinha escrevendo meu textos, marido me lembra que - Você está fazendo tudo que você sempre quis fazer. E é uma verdade, talvez a única da minha vida. Aquele lugar lá, na universidade, aquele ambiente é um momento meu, que eu tomei para mim, que eu acho que diz muito de mim e do qual eu sinto que faço parte como uma peça de mobília. Talvez seja essa a única certeza que tenho na vida toda. Nunca estive certa se queria filhos, casamento, salada com croutons. Casar aos 33 anos diz que pensei muito antes de estar certa do que queria. Sei que muita gente deve pensar que casei 'tarde' porque devo ser insuportável, ou focada em trabalho, ou a bitch, ou ... qualquer adjetivo que saem da boca de gente sem lote para carpir. De quatro irmãs, somente uma casou-se antes dos 25 anos de idade. E deve ser uma bitch também. Não adotou sobrenome do marido. A caçula casou aos 30 e o marido adotou o sobrenome dela. Putíssimo tendo que trocar todos os documentos e a gente dando risinhos por dentro. A última a casar, aos 32 e com filha de 8 anos, não adotou o sobrenome do marido, mas ela é prática, mas podem chamá-la da pá virada. Estou contando isso para poder dizer que, quando a gente foi crescendo, eu tinha a impressão que jamais nos encontraríamos depois de fazer escolhas tão diferentes. Mas nos encontramos na hora de escolher uma coisa tão prosaíca - afinal, adotaremos o sobrenome de nossos maridos ou não? Nós somos moças da roça, criadas em meio ao livros e jogos de alfabetização do antigo Mobral, da qual mãe era professora. Eu acho que essas moças da roça são tão subversivas. Eu espero tanto de gente com mais couraça e experiência do que nós. Em assutos diversos e polêmicos. Me assusto todos os dias com o que escuto;leio de pessoas que devem ter o miolo mole.
Uma aluna do curso é racista. Creio que a qualquer momento um conselho vai se reunir para decidir o que fazer com essa pessoa. Quando a professora interrrompe a apresentação de um aluno dizendo '' Você tem que ter muito cuidado de onde você retira os dados de seu projeto de pesquisa...''. A professora é educadíssima. A gente via o desconforto nos olhos dela. Uma outra colega disse que começou a tremer durante a apresentação da racistinha. Eu sentia como ''não, não pode ser, eu devo ter um inglês muito ruim e ... Não! Ela não disse isso que eu acho que ela disse". A serenidade com que a racista apresentava seus dados, suas hipóteses, o moço negro da nossa sala, a cara de espanto dele, o desconforto dele, a outra aluna que não via o momento de interromper e, quando aconteceu, eu sentia que ela não sabia nem por onde começar a refutar o que a racista jogou lá, na gente.
Eu sou burra. Eu espero que um ser humano sentado lá naquele ambiente que eu acho que pertenço, não vai agir com tamanha escrotidão. Mas aí eu venho cá para os 'meus' e vejo mulher feita celebrando a derrota de um time de futebol chamando os jogadores de mulherzinhas. Afinal, é negativo ser mulher. Ela também os chama de Bambis, numa alusão de que sejam gays. Isso, ser gay, não é positivo no mundo dela. Se eu tivesse mais tempo para perder pensando no quanto ela é escrota, desejaria que as crianças dela fossem gays. Tem funcionado aqui nos EUA. Um senador, sabidamente homofóbico, repensou o preconceito dele após o filho sair do armário. Eu sei que estou sendo simplista. Mas tem jeito de não ter esses desejos?
Disse a minha amiga Keyla que ninguém muda. Ninguém vai mudar. Tenho que diminuir minhas expectativas em relação a esse negócio chamado gente. Vou olhar videos de filhotinhos de gatos, cachorros. A humanidade não tem jeito. Eu fico com meu grupinho de amigos adorados. Com meus peers. Assim a gente se protege, não é mesmo? Eu tenho uma mãe número 2, linda, que no dia em que o time dela ganha do Vasco, ela põe fotinha de uma cheerleader slash funkeira no FB e diz que, infelizmente, tem amigos de muito mau gosto por aí - aquele que não torcem pelo mesmo time que ela - e ainda cita o nome dos amigos, sem tagá-los. Gente fina, meu amor! Finíssima.
Faça chuva ou faça sol, ponho a mesa todos os dias. Se quiser um pouco de perspectiva, minha casa está aberta para vocês. Prometo não chamar Clint's old gang quando vocês vierem aqui. Ele gosta de casa cheia. Eu também. Ele jura que sabe fazer churrasco brasileiro e as melhores caipirinhas. Eu juro que tenho Woody Allen na dispensa ...ops, no dvd, para assistir contigo.
Deletei minha conta em uma rede por aí, por motivos de - diminuição da minha produtividade. Dizem que vida virtual, inverno e expatriados não combinam. Não combina mesmo.
Então, eu acho burrice sair de uma casa antiga, com toda uma históra, com mais de 100 anos nas costas, com o corpinho perfeito e que ainda aguentará muitas ameaças de tornado, para entrar em uma divida para a vida toda financiando uma casa nova nos EUA. Entendo perfeitamente a minha sogra - ela acha que uma casa nova é sinônimo de ser bem de vida. Para mim e meu marido é sinônimo de 'dívida' e dor de cabeça.
Meu marido tem as vaidades dele. Eu tenho as minhas. Somos mãos de vaca. A vaidade dele é ter uma boa moto de corrida. A minha é viajar e ter um cabelo sem pontas duplas. Então, não gastamos muito e eu estou fazendo o Um Ano Sem Compras. Não comprarei nada para mim ou para a casa por 1 ano. Pratico o desapego também. Nós, ao contrário da classe média americana, não acumulamos o que não usamos. Eu faço doações das roupas, de brinquedos, até de gaiolinha de carregar gato. Deu sopa, eu estou doando. Não tenho a menor cerimônia em comprar em lojas de usados. Meu amor eterno os EUA e sua cultura das thrift stores. Aprendi com a Marjorie Rodrigues que devia para de mimimi e desapegar também dos livros do Monteiro Lobato. Conteúdo racista. É uma necessidade imensa importar esses livros para cá, para montar a biblioteca de meu menino? Não. Tantos autores brasileiros de literatura infantil fantásticos, não é mesmo. Desapeguei do Monteiro.
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Quando o curso está difícil e eu começo a dar aquela piradinha escrevendo meu textos, marido me lembra que - Você está fazendo tudo que você sempre quis fazer. E é uma verdade, talvez a única da minha vida. Aquele lugar lá, na universidade, aquele ambiente é um momento meu, que eu tomei para mim, que eu acho que diz muito de mim e do qual eu sinto que faço parte como uma peça de mobília. Talvez seja essa a única certeza que tenho na vida toda. Nunca estive certa se queria filhos, casamento, salada com croutons. Casar aos 33 anos diz que pensei muito antes de estar certa do que queria. Sei que muita gente deve pensar que casei 'tarde' porque devo ser insuportável, ou focada em trabalho, ou a bitch, ou ... qualquer adjetivo que saem da boca de gente sem lote para carpir. De quatro irmãs, somente uma casou-se antes dos 25 anos de idade. E deve ser uma bitch também. Não adotou sobrenome do marido. A caçula casou aos 30 e o marido adotou o sobrenome dela. Putíssimo tendo que trocar todos os documentos e a gente dando risinhos por dentro. A última a casar, aos 32 e com filha de 8 anos, não adotou o sobrenome do marido, mas ela é prática, mas podem chamá-la da pá virada. Estou contando isso para poder dizer que, quando a gente foi crescendo, eu tinha a impressão que jamais nos encontraríamos depois de fazer escolhas tão diferentes. Mas nos encontramos na hora de escolher uma coisa tão prosaíca - afinal, adotaremos o sobrenome de nossos maridos ou não? Nós somos moças da roça, criadas em meio ao livros e jogos de alfabetização do antigo Mobral, da qual mãe era professora. Eu acho que essas moças da roça são tão subversivas. Eu espero tanto de gente com mais couraça e experiência do que nós. Em assutos diversos e polêmicos. Me assusto todos os dias com o que escuto;leio de pessoas que devem ter o miolo mole.
Uma aluna do curso é racista. Creio que a qualquer momento um conselho vai se reunir para decidir o que fazer com essa pessoa. Quando a professora interrrompe a apresentação de um aluno dizendo '' Você tem que ter muito cuidado de onde você retira os dados de seu projeto de pesquisa...''. A professora é educadíssima. A gente via o desconforto nos olhos dela. Uma outra colega disse que começou a tremer durante a apresentação da racistinha. Eu sentia como ''não, não pode ser, eu devo ter um inglês muito ruim e ... Não! Ela não disse isso que eu acho que ela disse". A serenidade com que a racista apresentava seus dados, suas hipóteses, o moço negro da nossa sala, a cara de espanto dele, o desconforto dele, a outra aluna que não via o momento de interromper e, quando aconteceu, eu sentia que ela não sabia nem por onde começar a refutar o que a racista jogou lá, na gente.
Eu sou burra. Eu espero que um ser humano sentado lá naquele ambiente que eu acho que pertenço, não vai agir com tamanha escrotidão. Mas aí eu venho cá para os 'meus' e vejo mulher feita celebrando a derrota de um time de futebol chamando os jogadores de mulherzinhas. Afinal, é negativo ser mulher. Ela também os chama de Bambis, numa alusão de que sejam gays. Isso, ser gay, não é positivo no mundo dela. Se eu tivesse mais tempo para perder pensando no quanto ela é escrota, desejaria que as crianças dela fossem gays. Tem funcionado aqui nos EUA. Um senador, sabidamente homofóbico, repensou o preconceito dele após o filho sair do armário. Eu sei que estou sendo simplista. Mas tem jeito de não ter esses desejos?
Disse a minha amiga Keyla que ninguém muda. Ninguém vai mudar. Tenho que diminuir minhas expectativas em relação a esse negócio chamado gente. Vou olhar videos de filhotinhos de gatos, cachorros. A humanidade não tem jeito. Eu fico com meu grupinho de amigos adorados. Com meus peers. Assim a gente se protege, não é mesmo? Eu tenho uma mãe número 2, linda, que no dia em que o time dela ganha do Vasco, ela põe fotinha de uma cheerleader slash funkeira no FB e diz que, infelizmente, tem amigos de muito mau gosto por aí - aquele que não torcem pelo mesmo time que ela - e ainda cita o nome dos amigos, sem tagá-los. Gente fina, meu amor! Finíssima.
Faça chuva ou faça sol, ponho a mesa todos os dias. Se quiser um pouco de perspectiva, minha casa está aberta para vocês. Prometo não chamar Clint's old gang quando vocês vierem aqui. Ele gosta de casa cheia. Eu também. Ele jura que sabe fazer churrasco brasileiro e as melhores caipirinhas. Eu juro que tenho Woody Allen na dispensa ...ops, no dvd, para assistir contigo.
Deletei minha conta em uma rede por aí, por motivos de - diminuição da minha produtividade. Dizem que vida virtual, inverno e expatriados não combinam. Não combina mesmo.