domingo, 17 de março de 2013

Lorotinhas

Vou contar lorotinha para passar o tempo, já que não conheço nenhum mantra para diminuir a ansiedade e fazer com que gente desagradavel suma da face da Terra.

Então, eu acho burrice sair de uma casa antiga, com toda uma históra, com mais de 100 anos nas costas, com o corpinho perfeito e que ainda aguentará muitas ameaças de tornado, para entrar em uma divida para a vida toda financiando uma casa nova nos EUA. Entendo perfeitamente a minha sogra - ela acha que uma casa nova é sinônimo de ser bem de vida. Para mim e meu marido é sinônimo de 'dívida' e dor de cabeça.
Meu marido tem as vaidades dele. Eu tenho as minhas. Somos mãos de vaca. A vaidade dele é ter uma boa moto de corrida. A minha é viajar e ter um cabelo sem pontas duplas. Então, não gastamos muito e eu estou fazendo o Um Ano Sem Compras. Não comprarei nada para mim ou para a casa por 1 ano. Pratico o desapego também. Nós, ao contrário da classe média americana, não acumulamos o que não usamos. Eu faço doações das roupas, de brinquedos, até de gaiolinha de carregar gato. Deu sopa, eu estou doando. Não tenho a menor cerimônia em comprar em lojas de usados. Meu amor eterno os EUA e sua cultura das thrift stores. Aprendi com a Marjorie Rodrigues que devia para de mimimi e desapegar também dos livros do Monteiro Lobato. Conteúdo racista. É uma necessidade imensa importar esses livros para cá, para montar a biblioteca de meu menino? Não. Tantos autores brasileiros de literatura infantil fantásticos, não é mesmo. Desapeguei do Monteiro.

***

Quando o curso está difícil e eu começo a dar aquela piradinha escrevendo meu textos, marido me lembra que - Você está fazendo tudo que você sempre quis fazer. E é uma verdade, talvez a única da minha vida. Aquele lugar lá, na universidade, aquele ambiente é um momento meu, que eu tomei para mim, que eu acho que diz muito de mim e do qual eu sinto que faço parte como uma peça de mobília. Talvez seja essa a única certeza que tenho na vida toda. Nunca estive certa se queria filhos, casamento, salada com croutons. Casar aos 33 anos diz que pensei muito antes de estar certa do que queria. Sei que muita gente deve pensar que casei 'tarde' porque devo ser insuportável, ou focada em trabalho, ou a bitch, ou ... qualquer adjetivo que saem da boca de gente sem lote para carpir. De quatro irmãs, somente uma casou-se antes dos 25 anos de idade. E deve ser uma bitch também. Não adotou sobrenome do marido. A caçula casou aos 30 e o marido adotou o sobrenome dela. Putíssimo tendo que trocar todos os documentos e a gente dando risinhos por dentro. A última a casar, aos 32 e com filha de 8 anos, não adotou o sobrenome do marido, mas ela é prática, mas podem chamá-la da pá virada. Estou contando isso para poder dizer que, quando a gente foi crescendo, eu tinha a impressão que jamais nos encontraríamos depois de fazer escolhas tão diferentes. Mas nos encontramos na hora de escolher uma coisa tão prosaíca - afinal, adotaremos o sobrenome de nossos maridos ou não? Nós somos moças da roça, criadas em meio ao livros e jogos de alfabetização do antigo Mobral, da qual mãe era professora. Eu acho que essas moças da roça são tão subversivas. Eu espero tanto de gente com mais couraça e experiência do que nós. Em assutos diversos e polêmicos. Me assusto todos os dias com o que escuto;leio de pessoas que devem ter o miolo mole.

Uma aluna do curso é racista. Creio que a qualquer momento um conselho vai se reunir para decidir o que fazer com essa pessoa. Quando a professora interrrompe a apresentação de um aluno dizendo '' Você tem que ter muito cuidado de onde você retira os dados de seu projeto de pesquisa...''. A professora é educadíssima. A gente via o desconforto nos olhos dela. Uma outra colega disse que começou a tremer durante a apresentação da racistinha. Eu sentia como ''não, não pode ser, eu devo ter um inglês muito ruim e ... Não! Ela não disse isso que eu acho que ela disse". A serenidade com que a racista apresentava seus dados, suas hipóteses, o moço negro da nossa sala, a cara de espanto dele, o desconforto dele, a outra aluna que não via o momento de interromper e, quando aconteceu, eu sentia que ela não sabia nem por onde começar a refutar o que a racista jogou lá, na gente.

Eu sou burra. Eu espero que um ser humano sentado lá naquele ambiente que eu acho que pertenço, não vai agir com tamanha escrotidão. Mas aí eu venho cá para os 'meus' e vejo mulher feita celebrando a derrota de um time de futebol chamando os jogadores de mulherzinhas. Afinal, é negativo ser mulher. Ela também  os chama de Bambis, numa alusão de que sejam gays. Isso, ser gay, não é positivo no mundo dela. Se eu tivesse mais tempo para perder pensando no quanto ela é escrota, desejaria que as crianças dela fossem gays. Tem funcionado aqui nos EUA. Um senador, sabidamente homofóbico, repensou o preconceito dele após o filho sair do armário. Eu sei que estou sendo simplista. Mas tem jeito de não ter esses desejos?

Disse a minha amiga Keyla que ninguém muda. Ninguém vai mudar. Tenho que diminuir minhas expectativas em relação a esse negócio chamado gente. Vou olhar videos de filhotinhos de gatos, cachorros. A humanidade não tem jeito. Eu fico com meu grupinho de amigos adorados. Com meus peers. Assim a gente se protege, não é mesmo? Eu tenho uma mãe número 2, linda, que no dia em que o time dela ganha do Vasco, ela põe fotinha de uma cheerleader slash funkeira no FB e diz que, infelizmente, tem amigos de muito mau gosto por aí - aquele que não torcem pelo mesmo time que ela - e ainda cita o nome dos amigos, sem tagá-los. Gente fina, meu amor! Finíssima.

Faça chuva ou faça sol, ponho a mesa todos os dias. Se quiser um pouco de perspectiva, minha casa está aberta para vocês. Prometo não chamar Clint's old gang quando vocês vierem aqui. Ele gosta de casa cheia. Eu também. Ele jura que sabe fazer churrasco brasileiro e as melhores caipirinhas. Eu juro que tenho Woody Allen na dispensa ...ops, no dvd, para assistir contigo.

Deletei minha conta em uma rede por aí, por motivos de - diminuição da minha produtividade. Dizem que vida virtual, inverno e expatriados não combinam. Não combina mesmo.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A história do ..

Ethan gosta de abraçar. A professora disse que ele dá os melhores abraços. E eu fiquei esperando ela dizer que isto estava começando a ser um problema. Ele sai abraçando os amigos, colegas, professores. Coisas que fazemos aqui em casa sempre que dá - dançar a abraçar. E as vezes dançamos abraçados. Ele é socializado nesse ambiente. Né. Esses dias ele tentou abraçar um amiguinho. A mãe do amiguinho disse a ele assim '' Abrace sua mãe. É para isso que mães são feitas''. Ele ficou super mal.



Estava em uma festinha de aniversário. A mãe de um garoto, da mesma idade de Ethan, estava conversando comigo. De repente ela pegou o filho e deu uma cheirada nas costas dele. Ela diz '' Só estou checando se sua fralda está de coco*, little buddy, pois aqui não tem área no banheiro para troca de fraldas''.




Ethan pronuncia a palavra yellow fofamente. Lélôu. Amor.


* Não sei como se escreve coco - côcô - côco - respeitando a nova ortografia.



sábado, 5 de janeiro de 2013

Saudades


É uma sopa muito leve. É só para esquentar o coração. Inverno. Ao telefone: "Pai, fiz uma farofa tão boa. Pai, que saudades do sinhô". Faço uma lista dos temperos que dão sabor a tudo. Pimenta do reino reina absoluta. Descobri com a Perolada que usar raspar de gengibre - gengibre em pó para temperar é o céu. O sertão não alisa sua gente. Seus rios secos e suas flores de espinhos. Uma gente com o olhar meio seco. Picado de arroz com carne seca, pitomba que não mata a fome, mas faz criança feliz, panela de feijão borbulhando na trempe de pedra, carne de caça, o olho d'água. Bater feijão, secar arroz, pilar arroz, tocar os bois no engenho de cana, ouvir as conversas dos adultos ao redor do tacho de garapa, do forno de arribar farinha. Abraçar as barrigudas, espirar até ficar vermelha desfiando os capuchos das barrigudas. Matar galinha, cevar porco, debulhar milho. Será que ainda tem disso no sertão?

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal

Caetano sendo lindo e posando em um cenário Halloween meets Natal.
Faz carinho, faz!
O casal se divorcia. Ela se casa novamente e muda para outro Estado com o novo bofe. Deixa para trás os gatos. Ele, todo trabalhado na mágoa, joga os gatos dela na rua, afinal, não são meus mesmo, eram os gatos dela.

Minha amiga cuida dos gatos por um período até encontrar quem pode ficar com eles. Nós resolvemos adotá-los. Eles chegaram a poucos dias aqui em casa. Demos novos nomes.

Conheçam Frida e Caetano. Dóceis, amáveis, treinados, sem as garras - ( as pessoas não querem gatos, elas querem bichos de pelúcia ) - fofos.

Para os donos, que os abandonaram, temos planos de mandar um cartão de Natal escrito assim:

We are so fortunate to find people who love us! Adeus, idiota!
-Sincerely not yours,


Frida & Caetano

Happy Holidays everyone!!

Clint, Marissa, Ethan, Chico, Frida e Caetano

domingo, 16 de dezembro de 2012

Pontinho, pontinho

Minha orientadora já usou toda a cartela de cores no cabelo. Ela experimentou diversos modelinhos desde a adolescência ( papel crepom !) até os dias de hoje. Nada boring. Se for blá, ela não brinca. No momento ela está desfilando um azul Iemanjá. É uma professora de sociologia, new yorker radicada em Chicago. Eu fico encantada de como ela sustenta aquele look e não fica com cara de cluber. Ela é mignon, tem uma criança de 16 anos, usa uns óculos meio Jackie O e pesquisa população carcerária e violência nas Super Max. Na minha cabeça de I'm a country pumpkin, ou, nuss, ela é professora!!, é muita informação. Empedernidos é a palavra que me vem a cabeça quando lembro dos profes. da UFG.



Estou querendo ficar um ano sem comprar, ou ao menos, um ano sem Starbucks ou um ano sem Panera Bread. Fiz o inventario de meus esmaltes e concluí que posso ficar 2 anos sem adquirir mais esmaltes. Idem para maquiagens. Posso me impor uma regra para os cremes para o rosto - repor a cada 5 meses e só. Idem para shampoo e condicionadores. Farei meu cabelo 3 vezes ao ano, com  minha cabeleireira ( a raiz preta ficará gritando, mas eu grito mais aos desembolsar 125$ Obamas a cada retoque). Eu consigo retocar a raiz, mas só na parte da frente. É humanamente impossível fazer a parte de trás. Não comprarei roupas, sapatos, acessórios e bolsas. Nada para mim. É um desafio e tanto. O que vocês acham? 


*Não sei o segredo da dona, mas ela não aparenta a idade que deveria ter. Mestrado, doutorado nas costas e uma cria adolescente - qual o segredo? Demônia.

sábado, 15 de dezembro de 2012

FB e TT

A cada massacre, a mesma coisa: a mídia dos EUA faz psicologia de boteco, repleta de elucubrações sobre esses 'estranhos' assassinos (que, na verdade, são sempre figuras da mais pura normalidade comum e corrente produzida pela própria cultura da qual essa mesma mídia é retrato e cúmplice) enquanto, evidentemente, omite o essencial: a obsessão pelo poder, pela "vitória", e a disponibilidade de armas em qualquer supermercado.

Tente encontrar uma rede de TV ou grande jornal dos EUA discutindo se vale a pena construir um país em que qualquer um possa comprar armas semiautomáticas no supermercado da esquina. Inacreditavelmente, não existe.  
@iavelar



Here they are - all SIXTY-ONE mass shootings in the United States since Columbine. How many more, my fellow Americans?
Too soon to speak out about a gun-crazy nation? No, too late. At least THIRTY-ONE school shootings since Columbine
. @MMFlint

domingo, 9 de dezembro de 2012

Conselhos que ninguém pediu

O expatriado vai encontrando, ao seu modo, meios de não sentir tantas saudades do país de origem. A gente vai quebrando a cara aqui e ali, até que um dia, nos pegamos fazendo listinhas de 'prós e contras de morar aqui ou lá', 'quando eu sou mais brasileira e quando eu sou mais americana', 'gosto, não gosto, queria muito que os EUA adotassem essa modinha brasuca', etc. O tempo vai passando, a gente vai se acalmando e uma leveza na alma, parecida com o que chamam de adaptação, te alcança. Deve ser muito mais fácil para quem não curtia morar no Brasil e, ou, ama de paixão o país que adotou. Não é o meu caso. Quando aqui cheguei, tomei a adaptação como uma missão. Daria uma chance ao novo país. Daria uma chance para mim de gostar do novo país. Do canto que eu moro, eu gosto. Não diria o mesmo se morasse no interior do fim do mundo em Nebraska, por exemplo. Em um local meio que 'cosmopolitan', a gente vai se encontrando. Chicagoland tem o maior número de minorias de todos os EUA. Não é máximo?

O fato de gostar de cozinhar, detestar fast food e morar em um lugar onde encontro de um tudo, tipo, no Caputos, ajudou horrores. Esse mercado me foi apresentado por uma amiga americana. Um ironia dos diabos, pois, a conhecida brasileira era muito doidivanas e deslumbrada para me dizer - olha, tu encontra polpa de maracujá em mercadinhos mexicanos. Ah, o que uma townhouse em um campo de golfe faz com a cabecinha de certas pessoas. Ahahaha! Vou para o inferno? Sim ou com certeza? Aliás, se eu pudesse dar um conselho ao quem está se mudando para cá ( não dou!), seria - a experiência é diferente para cada um, blá, blá. blá, por favor, não fique de amizadezinha virtual em comunidades nas redes sociais da vida. Convites para entrar na comunidade Brasileiros Roxos de Saudades do Brazil Morando nos EUA? Corra! É cilada.

Saia de casa, tome um trem, ande pela cidade, aprenda a língua, tire a carteira de motorista, ( faça a provinha em espanhol se sentir insegurança com o inglês - a prova custa apenas 30 doletas), futuque nas prateleiras dos supermercados, faça amor e amizade com o site do Amazon, descubra, ame, daí, você vai ficando.